Cinco trajetórias distintas — Lisboa, Los Angeles, Atlanta, Nova Delhi, Londres — convergindo numa hipótese sobre o que acontece entre os dedos e o cérebro quando um ser humano escreve sobre o que sente. Estas são as figuras que fundamentam a pesquisa IKI e a arquitetura do OMMΩ.
n. 25 fev. 1944 · Lisboa, Portugal
USC Brain and Creativity Institute · Cátedra David Dornsife de Neurociências
«A razão não opera independente da emoção — os pacientes de Damásio provaram isso antes de qualquer teoria.»
António Rosa Damásio estudou medicina na Universidade de Lisboa, formou-se sob orientação de Norman Geschwind e doutorou-se em Lisboa em 1974. Emigrou para os Estados Unidos ainda na década de 1970, tornando-se diretor do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa por mais de duas décadas. Em 2005, transferiu-se para a USC, onde dirige o Brain and Creativity Institute em colaboração permanente com Hanna Damásio. É membro da Academia Nacional de Ciências dos EUA e seus livros foram traduzidos para mais de 30 idiomas.
No Hospital da Universidade de Iowa, Damásio estudou centenas de pacientes com lesões no córtex pré-frontal ventromedial — inclusive o caso célebre de Phineas Gage, trabalhador americano do século XIX que sobreviveu a uma barra de ferro atravessando o crânio e perdeu a capacidade de tomar decisões racionais enquanto mantinha inteligência e linguagem intactas. Esses casos clínicos levaram à formulação da Hipótese do Marcador Somático: estados do corpo sinalizam antecipadamente o valor emocional de uma decisão, funcionando como filtros que tornam a deliberação racional possível.
A hipótese do marcador somático é a âncora teórica central da pesquisa IKI da Xcorphion: se o corpo sinaliza estados emocionais antes e durante a decisão, ele também os sinaliza enquanto escreve — e os dedos, em particular, transmitem esse sinal em milissegundos.
Descartes' Error: Emotion, Reason and the Human Brain
Putnam / Penguin
Ataca o dualismo cartesiano usando casos clínicos de lesão pré-frontal. Formula pela primeira vez, de forma sistemática, a Hipótese do Marcador Somático. Mais de 28.000 citações no Google Scholar.
AdquirirThe Feeling of What Happens: Body and Emotion in the Making of Consciousness
Harcourt
Distingue três camadas — emoção (processo automático), sentimento (representação mental da emoção) e consciência (o self que percebe o sentimento). Propõe que sentir é sempre sentir algo que acontece ao corpo. Mais de 12.000 citações.
AdquirirLooking for Spinoza: Joy, Sorrow and the Feeling Brain
Harcourt
Encontra em Spinoza (1632–1677) um precursor da neurobiologia dos afetos. Define com rigor a distinção entre emoção (programa automático e público do organismo) e sentimento (experiência subjetiva e privada). Mais de 8.000 citações.
AdquirirSelf Comes to Mind: Constructing the Conscious Brain
Pantheon
Propõe três camadas do self: proto-self, self central e self autobiográfico. Argumenta que a consciência emerge do tronco encefálico, não do neocórtex — colocando o corpo no centro da experiência subjetiva. Mais de 5.000 citações.
AdquirirThe Strange Order of Things: Life, Feeling and the Making of Cultures
Pantheon
Propõe que sentimentos são instrumentos homeostáticos presentes desde formas de vida unicelulares e que a cultura humana emerge como resposta coletiva à necessidade de regular o bem-estar. Mais de 3.000 citações.
AdquirirFeeling & Knowing: Making Minds Conscious
Pantheon
Obra de maturidade. Consolida teses sobre consciência, sentimento e homeostase. Argumenta que a interoceptividade — sentir o próprio estado interno — é a origem evolutiva de toda experiência subjetiva.
AdquirirThe Somatic Marker Hypothesis and the Possible Functions of the Prefrontal Cortex
Philosophical Transactions of the Royal Society B
Artigo fundacional da hipótese do marcador somático. Apresenta o Iowa Gambling Task como paradigma experimental. Mais de 4.500 citações.
ArtigoLos Angeles, Califórnia, EUA
Boston College · Emotion Development Lab · Professor titular de Psicologia
«Qualquer estado emocional pode ser localizado num espaço bidimensional de valência e arousal. Essa geometria é o que o OMMΩ usa para escutar o que os dedos dizem.»
James A. Russell cresceu numa família operária em Los Angeles e transformou ceticismo em rigor científico. Publicou mais de cem artigos, todos sobre emoção. Trabalhou por décadas na Universidade de British Columbia antes de se fixar no Boston College, onde fundou o Emotion Development Lab. Foi editor-chefe da revista Emotion Review entre 2007 e 2014.
Russell é o arquiteto do modelo circumplexo do afeto (1980) — a geometria padrão dos sistemas de anotação emocional em aprendizado de máquina, psicologia clínica e neuroimagem funcional. No protocolo IKI da Xcorphion, participantes reportam seu estado emocional como posição no espaço bidimensional circumplexo — valência (0–100) e arousal (0–100) — a cada 200 caracteres digitados. Essa interface de autorrelato é derivada diretamente do modelo de Russell.
É também um crítico sistemático da hipótese de universalidade das expressões faciais de Paul Ekman, tendo demonstrado que as taxas de reconhecimento das chamadas "emoções básicas" são artificialmente infladas por metodologias de escolha forçada.
A Circumplex Model of Affect
Journal of Personality and Social Psychology
O artigo mais citado de Russell e um dos mais citados em psicologia emocional. Propõe que estados afetivos são posições num espaço circular onde os eixos são valência (prazer–desprazer) e ativação (alta–baixa excitação). Mais de 25.000 citações.
Artigo · APACore Affect and the Psychological Construction of Emotion
Psychological Review
Distingue core affect — estado neurofisiológico contínuo, sempre presente — do conceito pleno de emoção. Emoções não são detectadas pelo organismo: são construídas por ele. Mais de 6.000 citações.
Artigo · APAIs There Universal Recognition of Emotion from Facial Expression? A Review
Psychological Bulletin
Revisão crítica dos estudos de Ekman sobre universalidade. Demonstra que metodologias de escolha forçada inflavam artificialmente as taxas de reconhecimento. Marco metodológico da área. Mais de 3.500 citações.
Artigo · APAThe Psychological Construction of Emotion
Guilford Press · co-editado com Lisa Feldman Barrett
Volume coletivo que sintetiza décadas de construtivismo psicológico das emoções. Defende que emoções não são módulos inatos do cérebro, mas construções que dependem de linguagem, cultura e contexto. Referência para pesquisadores com modelos computacionais de afeto.
Adquirirn. 1962, EUA
MIT Media Lab · Cátedra Grover M. Hermann · Fundadora: Affectiva & Empatica
«Se a emoção é essencial para a cognição humana, por que os computadores são completamente cegos a ela?»
Rosalind Picard formou-se em engenharia elétrica pelo Georgia Tech com distinção e doutorou-se no MIT em Ciências Elétricas e da Computação. Trabalhou no AT&T Bell Labs antes de ingressar no MIT Media Lab, onde seu foco inicial era computer vision — percebendo que humanos usam emoção para indexar e recuperar imagens, perguntou-se: e se computadores fizessem o mesmo?
Fundou o Affective Computing Research Group no MIT Media Lab em meados dos anos 1990. O livro Affective Computing (1997) nomeou e estabeleceu um campo inteiro, gerando a conferência ACII e a revista IEEE Transactions on Affective Computing. Cofundou a Affectiva — cujas tecnologias de IA emocional são usadas por mais de 25% das empresas Fortune 500 — e a Empatica, produtora de sensores vestíveis para monitoramento de crises epilépticas. Foi eleita para a Academia Nacional de Engenharia dos EUA em 2019.
A contribuição de Picard mais diretamente relevante para o OMMΩ IKI é a demonstração empírica de que padrões de uso do teclado e do mouse correlacionam-se com medidas fisiológicas de estresse — uma das primeiras evidências de que keystroke dynamics carregam sinal afetivo mensurável. Essa linha de evidência é citação direta na genealogia teórica do projeto.
Affective Computing
MIT Press
O livro fundador do campo. Argumenta que computadores precisam reconhecer, compreender e — de forma limitada — expressar emoções para interagir naturalmente com humanos. Deu origem à conferência ACII, à revista IEEE Transactions on Affective Computing e a uma sociedade profissional.
Adquirir · MIT PressRecognizing Stress from Keystroke and Mouse Patterns
Picard & Healey · IEEE
Demonstra que o padrão de uso do teclado e do mouse correlaciona-se com medidas fisiológicas de estresse. Uma das primeiras demonstrações empíricas de que keystroke dynamics carregam sinal afetivo — citação direta da genealogia do OMMΩ IKI.
Artigo (PDF)Toward an Affective User Interface: Motivation and Theory
Personal and Ubiquitous Computing
Articula os princípios de design para interfaces que reconhecem e respondem ao estado emocional do usuário: sem invasão de privacidade, resposta contextualmente adequada, transparência sobre inferências.
ArtigoAffective Wearables
Personal and Ubiquitous Computing
Proposta de vestíveis que monitoram continuamente sinais fisiológicos correlacionados com estados emocionais. Antecipou em décadas os smartwatches modernos com sensores biométricos.
Artigo (PDF)Google Brain / Google Research · Universidade de Toronto — 2017
Autores do Transformer — a arquitetura sobre a qual toda a IA generativa moderna foi construída
«Atenção é tudo que você precisa — e esse paper sustenta o GPT, o BERT, o LLaMA e o OMMΩ.»
Oito pesquisadores — todos então no Google Brain ou Google Research, exceto Aidan Gomez, estagiário da Universidade de Toronto — publicaram em 2017 o artigo que criou a infraestrutura computacional de toda a IA generativa moderna. Ashish Vaswani e Illia Polosukhin implementaram os primeiros modelos. Noam Shazeer propôs o scaled dot-product attention e o multi-head attention. Jakob Uszkoreit formulou a questão central: e se substituíssemos RNNs inteiramente por self-attention?
O Transformer dispensou completamente a recorrência (RNNs, LSTMs) e as convoluções, demonstrando que atenção sozinha é suficiente para capturar dependências de longo alcance em sequências. A arquitetura opera por três componentes centrais: (1) scaled dot-product attention; (2) multi-head attention, que executa múltiplas operações em paralelo em diferentes subespaços; e (3) positional encoding via funções senoidais. GPT usa apenas o decoder. BERT usa apenas o encoder.
O OMMΩ opera sobre variações dessa arquitetura para processar texto narrativo e sequências de eventos de teclado como representações conjuntas de estado afetivo — combinando o sinal linguístico com o sinal somático bruto dos intervalos entre teclas.
Attention Is All You Need
NeurIPS · Google Brain
O paper fundador do Transformer. Mais de 93.000 citações — um dos mais citados em toda a história da ciência da computação. Toda a IA generativa moderna foi construída sobre esta arquitetura.
arXiv (gratuito)Image Transformer
ICML · Parmar et al.
Extensão do Transformer para geração de imagens, demonstrando que a arquitetura generaliza além de texto — antecipando o Vision Transformer (ViT).
arXivUniversal Transformers
ICLR · Dehghani et al., com Kaiser e Shazeer
Propõe Transformers com número adaptativo de passos de processamento, aproximando a arquitetura de máquinas de Turing universais.
arXivn. 6 dez. 1947 · Wimbledon, Londres
Universidade de Toronto · ex-Google Brain · Nobel de Física 2024 · Prêmio Turing 2018
«Bisneto de George Boole. Cinco décadas convicto quando o mundo não estava. Agora o mundo está e ele se preocupa.»
Geoffrey Everest Hinton é bisneto do matemático George Boole, criador da álgebra booleana que está na base de toda a computação digital. Estudou psicologia experimental em Cambridge (BA, 1970) e doutorou-se em inteligência artificial pela Universidade de Edinburgh (PhD, 1978). Nos anos 1970 e 1980, quando a comunidade de IA considerava redes neurais um beco sem saída, Hinton permaneceu convicto de que a chave estava em sistemas que aprendem representações distribuídas, inspirados no funcionamento do cérebro.
Em Toronto, com seus estudantes Ilya Sutskever e Alex Krizhevsky, desenvolveu a AlexNet (2012), que venceu o ImageNet Challenge com uma margem devastadora — 15,3% de erro Top-5 contra 26,2% do segundo colocado — e é considerada o marco de nascimento do deep learning moderno. Em 2012, o Google adquiriu sua empresa por ~44 milhões de dólares. Em 2023, Hinton deixou o Google declarando publicamente preocupação com os riscos da IA. Recebeu o Prêmio Nobel de Física em 2024, junto com John Hopfield.
A contribuição de Hinton mais diretamente relevante para a pesquisa IKI é o Forward-Forward Algorithm (2022): substitui os dois passes do backpropagation por dois passes forward — um com dados reais e um com dados negativos — aprendendo localmente, camada por camada, sem coordenação global. Esse algoritmo é a inspiração direta do Predictive Forward-Forward (PFF) de Ororbia & Mali (2023), o algoritmo-alvo de treinamento do OMMΩ.
Learning Representations by Back-propagating Errors
Nature · com Rumelhart e Williams
Popularizou o backpropagation como algoritmo de treinamento para redes neurais multicamadas. A base de praticamente todo o deep learning treinado desde então. Mais de 27.000 citações.
NatureImageNet Classification with Deep Convolutional Neural Networks (AlexNet)
NeurIPS · com Krizhevsky e Sutskever
O paper da AlexNet. Iniciou o boom do deep learning e transformou o setor tecnológico. Mais de 110.000 citações — um dos mais citados em toda a história da computação.
NeurIPSDropout: A Simple Way to Prevent Neural Networks from Overfitting
JMLR · com Srivastava et al.
Introdução do dropout como técnica de regularização. Simples e extremamente eficaz: neurônios são desativados aleatoriamente durante o treinamento. Mais de 50.000 citações.
JMLR (gratuito)The Forward-Forward Algorithm: Some Preliminary Investigations
arXiv
Substitui backpropagation por dois passes forward: um com dados reais (positivos) e um com dados negativos. Aprende localmente, camada por camada, sem coordenação global — biologicamente mais plausível e a inspiração direta do algoritmo PFF usado no OMMΩ.
arXiv (gratuito)Nobel Prize in Physics 2024 — Geoffrey Hinton
The Royal Swedish Academy of Sciences
Prêmio Nobel de Física 2024, compartilhado com John Hopfield, pelo desenvolvimento de métodos que habilitaram o aprendizado de máquina com redes neurais artificiais.
Página oficialUma convergência improvável
Lisboa, Los Angeles, Atlanta, Nova Delhi, Londres. Um neurologista clínico, um psicólogo experimental, uma engenheira do MIT, oito engenheiros do Google, um bisneto de Boole. O que os une é uma hipótese que o IKI está testando: que o corpo não para de transmitir quando a mente está ocupada em pensar — e que os dedos, em particular, transmitem mais do que palavras.